quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Culpado


"Tirei sua alma e te dei vida 
Você é o condenado pela minha mão 
Meu filho, criatura da noite" 
— ICED EARTH, The last laugh


FRIO. PARECIA TUDO QUE OTTO PODIA SENTIR. Não aquele frio que se experimenta ao tocar o solo gelado com os pés descalços, nem mesmo o frio promovido pela brisa noturna á beira mar, mas um frio mais denso, algo que quase poderia ser tocado, que partia de dentro como se sua própria essência fosse feita pela falta de calor.  Nunca imaginou que sentiria assim depois de morrer.

Dizem que a vida toda passa diante de seus olhos no momento da morte, Otto agora entendia que essa máxima era ainda mais intensa. Não só vislumbrara imagens desconexas de sua vida no momento final, como elas ainda insistiam em se repetir enquanto ele caminha pela rodovia escura na qual se deu seu fim. Era noite. A mais escura noite.

Nunca fora religioso, não por falta de convicção ou visão religiosa, mas por pura conveniência, preferia pensar que se ele não se atrevesse a encarar a religiosidade, o oculto, ela nunca o incomodaria, passou a pensar diferente depois daquela noite.

Por mais que se esforçasse não conseguia entender como tinha chegado naquela situação, conseguia reproduzir seus passos anteriores, mas em determinado ponto eles simplesmente sumiam, como se tivessem sido apagados, mesmo assim ele tentava remoer as lembranças enquanto caminhava sem rumo, descalço e sujo pela rodovia deserta.

Coisas que antes não lhe faziam diferença começavam a surgir em sua mente como um lampejo, a primeira bicicleta, as amizades da escola, o primeiro amor. Andava como se sentisse todo peso de uma vida sobre suas costas, não sabia dizer com exatidão, mas sabia que algo ainda o prendia ali, algo a ser alcançado, um estado de espírito talvez, não sabia ao certo, apenas não podia parar de caminhar.

À medida que andava sentia o vento da noite, ou pelo menos se lembrava da sensação de sentir o vento, notou uma marca de pneu na pista castigada pelo tempo, as marcas que indicavam que um carro possivelmente em alta velocidade freou bruscamente e descreveu uma curva para a esquerda, de encontro com um pequeno matagal. Otto foi impelido a seguir a marca, talvez ele houvesse sido o motorista á realizar tamanha manobra. O matagal escondia uma enorme declive e em seu interior jazia um carro tombado e praticamente todo amassado.

Não resistiu e desceu quase que flutuando até alcançar finalmente o veículo. Ao se aproximar percebeu varias pessoas á sua volta e, assim como ele, estavam rasgadas e feridas, emanavam uma aura de tristeza e pareciam tão etéreos quanto Otto. Olharam todos ao mesmo tempo para ele, olhares tristes se transformando em ódio. Punhos cerrados e feições ameaçadoras. Todos, crianças, adultos, homens e mulheres que se amontoavam perto do carro partiram em carga contra Otto, que assuntado se jogou no barranco e desesperadamente tentava se agarrar ao solo para subir, porém fora pego por mãos que lhe seguraram as pernas. Duas, quatro, várias mãos o segurando pelas roupas, cabelos, todos forçando para baixo, arranhando e puxando, Otto no auge de seu desespero tentou gritar, a voz não saía, sentia sua essência sendo tragada para o fundo, lutava contra a força de dezenas. Não aguentou e cedeu. Escuridão. Vazio.

Apareceu novamente na mesma rodovia, a cabeça girava, sentia ânsia, mesmo percebendo que seu corpo não estava ali, antes que conseguisse se colocar totalmente de pé viu surgir de longe uma luz. Rápida. Agressiva em sua direção. Protegeu o rosto com as mãos esperando o impacto que não veio. Barulho. Cheiro de borracha queimada. O carro vendo Otto se desviou bruscamente para o barranco se chocando em seu interior. Silencio. Após alguns eternos segundos, várias pessoas apareceram das sombras, como se surgissem do nada e ampararam aqueles no interior do carro acidentado, como se recepcionassem os novos moradores do local.

Apontaram para Otto, que com medo voltou para a pista, tinha medo de ir até lá, se sentia seguro na rodovia. Sentou e tentou chorar. As lágrimas não vieram, o que veio foi mais um par de faróis em alta velocidade, abaixou o rosto sem vontade de se proteger do impacto certo. Esse também não veio.

Obrigado por chegar até aqui, queira por favor exprimir sua opinião através do marcador "Reações" logo abaixo e comente algo se possível, seu ponto de vista será de extrema utilidade. Desde já agradeço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário