"Medo do escuro, medo do escuro
Eu tenho fobia de que sempre alguém estará lá"
— Fear of the Dark, IRON MAIDEN
Hesitei, confesso. Quem não hesitaria? Quem em semelhante situação não estaria com medo? Quem poderia estar tranquilo e sereno diante de ato tão extremo? Sabia que daquele ponto não havia mais volta, era sabido que ele logo chegaria.
Não
pensem que isso foi premeditado, que nessa altura da vida eu teria que recorrer
a tão impensada medida, porém os recentes acontecimentos de minha vida me
impeliram a agir assim, agir pelo medo, pelo puro desespero. Não aguentava mais
—
ouso dizer que ninguém aguentaria por tanto tempo —
a aquela altura eu havia entregado todos os pontos, eu finalmente desisti.
Lembro-me
do tempo em que não precisava me preocupar com meu futuro, meu destino. Gozava
de boa saúde, bom emprego e uma família estruturada, tinha a vida que muitos sonhavam,
havia encontrado a paz na família e nos negócios, adorava minha vida, até que
isso já não era o bastante. Eu queria mais.
Aquela
noite eu havia me decidido. Iria ao encontro dele, aquele que me proveria de
poder, mais poder do que eu poderia conseguir sozinho em décadas. Havia
pesquisado muito, entrado fundo no assunto, me envolvido com pessoas das mais
variadas classes sociais e realidades para enfim tomar a decisão. Não esperei
nem mesmo o dia seguinte amanhecer.
Caminhei
pelo parque segurando firmemente contra meu peito uma bolsa que levava a
tiracolo, não havia vento aquela noite, nenhum som, nenhuma vida. Segui pelo
caminho usual que todos faziam ao atravessar o parque, meus passos eram um
misto de excitação e medo, quando alcancei a centenária figueira, que servia de
marco central ao parque, dobrei a esquerda por entre as árvores e segui por um
caminho sem trilhas e que recebia apenas uma pequena parte da iluminação dos
postes que iluminavam o caminho principal. Lembro-me que quase desisti à aquela
altura e se o tivesse feito poderia ter me arrependido no dia seguinte, mas estaria
à salvo agora.
Os
meus passos faziam barulho, eu pisava em galhos e folhas secas, mas não me importei
com isso, eu estava sozinho, não estava? Segui pelo caminho improvisado por mais
alguns metros e então parei em uma clareira, olhei em volta nervosamente para
me assegurar da minha solidão, vi um vulto correr por entre as árvores e
apertei os dentes quase a ponto de quebrá-los. Esperei por algo que não veio,
era como se aquele som, aquele movimento nas sombras fosse o meu último aviso,
se passasse daquela linha, tudo mudaria. E nem tudo que muda é para melhor.
Ajoelhei-me
no chão e despejei todo o conteúdo da sacola entre meus joelhos dobrados, a
primeira coisa que caiu foi a cabeça de Lady, minha gata negra que fora a
alegria da casa, lembro-me ainda dos olhos tristes de minha menina quando menti
que Lady havia sido roubada, quase desisti ali também, mas minha ambição era
maior, no sótão foi onde cortei sua cabeça e juntei com os outros
“ingredientes” que já havia coletado, falo ingredientes pois o que fiz nada
mais foi do que seguir a risca o que tinha estudado e aprendido e como quem prepara
um bolo arrumei todo o material como era pedido. Risquei com a faca usada para
matar um pombo a estrela de cinco pontas na qual pousei a cabeça de Lady no
centro, fiz murmurando o cântico antigo sem errar nenhum verso! Entenda a
complexidade desse ato, eu ávido para encontrar o que queria fiz cegamente o
que me foi proposto e ao final da receita, esperei. Esperei muito. Porém nada
aconteceu.
Lembro-me
que voltei para a casa triste, minha amada esposa me esperava e tive de mentir:
uma reunião estressante até altas horas foi o meu álibi. Banhei-me e depois do
jantar me deitei na cama para dormir, porém o sono não vinha, fiquei de olhos
abertos na escuridão me crucificando por ter acreditado em algo tão idiota.
No
dia seguinte, logo ao chegar ao escritório recebi uma triste notícia, um colega
de trabalho havia morrido na noite passada — infarto eles me disseram
—
todos no escritório foram ao velório, muitos ali por pura obrigação, pois o
falecido não era o tipo de pessoa que podia se chamar de amigável, era invejoso
e muito autoritário, por vezes fazíamos piada com seu jeito desengonçado de
andar que lembrava um pato, o que me surpreendeu foi o que aconteceu depois. No
outro dia fui chamado à sala da diretoria, com a morte do “pato” fui nomeado o
mais novo superintendente de finanças da empresa, um cargo almejado por muitos
e conseguido por poucos, não me contive de alegria e fui à um pub comemorar com
os amigos a promoção ao final do expediente.
Eu estava
radiante, nas semanas seguintes eu sorria e cumprimentava todos no ambiente de
trabalho, porém minha promoção causou a inveja de alguns — e
eu não os culpo —
poucos conseguem conviver com o sucesso alheio e mais pouco ainda são aqueles
que passam por isso sem nutrir uma inimizade desnecessária com o promovido, é
assim a vida empresarial, uma verdadeira selva de leões. A supervisora de
vendas, no entanto, não só ficou descontente com minha promoção como fazia
questão de deixar isso bem claro a qualquer um que lhe cedesse alguns minutos
para ouvir calúnias sobre mim, mas sempre dava ombros, eu estava no topo.
Passei por ela
aquela manhã e encenei meu melhor sorriso, fiz questão de mostrar minha posição
superior, ela riu e certamente me mandou a merda assim que lhe virei as costas,
aquela vadia. Sentei-me em minha mesa e coloquei o celular para carregar, porém
meu carregador havia desaparecido, deixei o celular sem bateria na gaveta da
escrivaninha e me pus a verificar minha caixa de e-mails quando a mesa começou
a tremer levemente de forma intermitente, achei estranho e passei meus olhos
por toda a extensão da mesa procurando o motivo da vibração. Nada. Olhei por
baixo de papeis, abria as gavetas e vi que meu celular estava vibrando. Meu
celular sem bateria estava vibrando. Olhei alguns segundos para ele e atendi, o
numero não era apresentado em seu visor, mas mesmo assim atendi. Silencio. Ela trama contra você. — a
voz do outro lado me colocou em alerta, parecia uma mistura de voz rouca com o
rugido de um tigre. Ela vai por tudo a
perder. — Protestei, exigi uma resposta e me
arrependi de ter perguntado quando ela veio: Irei fazer a minha parte, não se preocupe, tome seu café e aproveite a
paisagem. Desligou.
Fiquei alguns
segundos com o telefone ao ouvido que não produzia mais nenhum ruído, meu
coração estava acelerado, olhei para o aparelho e constatei que realmente ele
estava sem bateria. Fiquei ali parado por um instante, ponderando aquilo. Sou
um dependente convicto de cafeína, bebo litros de café todos os dias e
situações como essa me impulsionam a beber ainda mais, corri até a cafeteira,
me servi de café e bebi todo o conteúdo da xícara em um só gole, mal senti o
gosto da bebida, nervosamente tornei a encher a xícara, respirei fundo e fui
até a janela que, do terceiro andar onde estava, conseguia ter uma bela visão
do jardim e de todo estacionamento, comecei a relaxar, tentar colocar as coisas
no lugar enquanto me acalmava vendo o balançar das árvores com o vento. Foi
então que ela surgiu.
Com um andar
apressado, apesar do sapato de salto e da saia que moldavam seu estilo social,
a supervisora de vendas irrompia em direção de seu espalhafatoso carro amarelo
que estava parado fora do estacionamento, do outro lado da rua. Que diabos
estava fazendo fora da empresa em pleno expediente? Passou pela portaria e logo
ganhou as ruas, eu estava fervendo em raiva com essa afronta, até que algo me
paralisou: nem bem tinha colocado os pés na rua e um enorme caminhão
frigorífico passou a alta velocidade em frente portaria levando a supervisora
com ele. Fiquei paralisado vendo as pessoas se amontoando em volta do corpo
caído da jovem quando finalmente o caminhão parou a alguns metros, não demorou
e o resgate apareceu, colocaram-na em uma enorme saco preto e a ambulância
partiu com as sirenes ligadas.
Achei que meu
coração havia parado, minha respiração ficou ofegante e derrubei a xícara que
trazia em minha mão, olhei para o celular sobre a mesa e como se ele me
encarasse de volta, o visor ganhou cores e ele voltou a tocar. Em um ato de
puro desespero, arremessei o celular contra a parede que se despedaçou.
Silencio. Não demorou e o maldito aparelho voltou a tocar, caminhei devagar e o
tomei em mãos, levei o celular ao ouvido e esperei. Ela não vai mais incomodar. Desliguei e as lágrimas caíram em meu
rosto, não havia dúvidas que eu provocara, de forma indireta eu sei, a morte
daquela mulher, outro pensamento me ocorreu, o antigo superintendente de
finanças era mais jovem que eu e ainda praticante de atividades físicas, com
certeza ele não estava na zona de risco, dificilmente seria acometido por uma parada
cardíaca, ainda mais fulminante, tremi ao ligar os fatos, alguém está me
ajudando. Lembrei-me da noite na clareira e as lagrimas passaram pelos meus
lábios agora sorridentes. Tinha conseguido o que queria.
Após esse fato
minha vida mudou completamente, minha carreira decolou, ganhei inúmeros
concursos, via pessoas que opunham aos seus objetivos serem eliminadas uma a
uma, me acostumei com as ligações e já me sentia a vontade para pedir favores
que sempre eram cumpridos sem questionamentos, eu mesmo nunca questionava,
estavam me ajudando, limpando o caminho para o meu sucesso, fosse Deus ou o
Diabo eu não ia interferir, estava me dando bem e não queria parar.
O mundo
parecia pequeno demais para mim, até que vi minha ascensão ao topo se tornar
uma vertiginosa queda, já era tarde da noite quando o telefone sem bateria
tocou. A inveja do seu sucesso está entre
sua família. Tentei dizer algo, mas a voz tremeu e não saiu. Podem lhe trazer problemas e não queremos
isso, queremos? Tentei protestar, mas era tarde de mais, o telefone havia
ficado mudo, uma onda de pânico percorreu meu corpo, saltei da cama e apanhei
as chaves do carro, dirigi a toda velocidade para o único lugar além de minha
casa povoado por pessoas que eu amava, cruzei um sinal vermelho e quase me
choquei com uma moto, que ao tentar desviar do meu carro se chocou contra um
ônibus que vinha em direção contrária — certamente não havia sido apenas um acidente. Acelerei o máximo
que pude e parei diante de minha antiga casa, agora cercada por pessoas que se
acotovelavam para ver a casa de meus pais em chamas. Os bombeiros lutavam contra
o fogo, porém fui informado que ninguém sobreviveu, uma falha na instalação
elétrica foi o que havia sido previamente analisado. Entrei no carro sem que
ninguém visse e chorei. Chorei como nunca antes, até que o telefone tocou.
Aquela noite
eu não atendi ao telefone, ele sempre insistia em tocar, mas nunca mais atendi,
estava em choque com tudo aquilo, percebi que estava indo longe demais, estava
na hora de colocar um fim naquilo tudo. Desci até o sótão, não liguei a luz
para não alertar o restante da casa que eu estava ali, passei pela mesa de
ferramentas onde matei Lady e me detive um instante pensando do que eu fui
capaz, caminhei até o fundo do aposento e próximo da caixa de passagem
elétrica, em um velho baú empoeirado, joguei o celular e fechei a pesada tampa,
ao me virar ainda podia ouvir o celular me chamando, fechei a porta e imaginei
ter deixado o terror atrás dela. Estava enganado.
Dias, semanas
se passaram e comecei a ver meu mundo cair, o trabalho era cada vez mais carregado
de cobranças, minha mulher parecia cada vez mais distante de mim e até meu garoto
de oito anos parecia não se importar com minha presença. Amigos desapareceram,
boatos que me desmoralizavam circulavam entre colegas de trabalho, eu estava à
beira da loucura e a única coisa que me acalmava era a bebida. Comecei a beber
desenfreadamente e não demorou até que eu fui seduzido pelo jogo, era dinheiro
fácil eu pensei, apenas uma mão de sorte e tudo podia mudar, infelizmente a
sorte pareceu me abandonar. Perdi o emprego e minha mulher, minha amada
companheira, não mais suportava nossas brigas e resolveu partir, estava reunindo
suas coisas quando eu cheguei, com lágrimas nos olhos disse me que não me reconhecia,
que não aceitava ficar parada olhando eu me destruir, iria embora e levaria meu
filho com ela, explodi em fúria e a agredi, ela caiu e chorou, eu lhe dei as
costas e fui ao encontro da única coisa que poderia me tirar desse fosso, desse
buraco que insistia em me puxar para baixo. Voltei ao sótão.
Parei diante
da porta daquele lugar maldito, fechei os olhos e retomei tudo que me aconteceu
durante os últimos meses, de como fui ao céu e desci ao inferno em tão pouco
tempo, de como influenciei as pessoas a minha volta, era um passo sem volta o
que eu estava prestes a dar, mas não podia mais viver naquele caos, não eu que
fui apresentado a um futuro brilhante e glorioso — estaria eu sendo
egoísta? Ninguém em meu lugar tomaria atitude diferente! Ninguém conseguiria
ficar alheio a tamanha oportunidade de vitória, por mais dor que isso pudesse
me trazer, toquei a maçaneta e entrei, o ar úmido do sótão encheu meus pulmões,
os olhos começavam a se adaptar a escuridão do quarto quando ao fundo pude ver
uma das piores cenas de minha vida.
Meu pequeno
garoto, esperto e curioso como qualquer criança em sua idade, estava em pé, de
costas para mim, com uma das mãos segurava o celular que cintilava contra seu
jovial rosto de criança enquanto a outra mão aproximava de forma perigosa uma
ferramenta metálica até o quadro de distribuição elétrica. Gritei para que
parasse enquanto corria, desci a escada que levava até a parte de baixo pulando
os degraus e quase no fim acabei caindo, bati com a cabeça no chão e quando a
levantei escutei o estouro. A luz que vinha da casa e entrava no sótão pela
porta que deixei aberta vacilou, quando se acendeu novamente e clareou o ambiente
pude ver meu pequeno filho caído no chão inconsciente, corri e o tomei nos
braços chorando, minha mulher apareceu à porta e me fuzilou com toneladas de
ofensas, tomou meu filho dos meus braços e saiu trancando a porta atrás de si,
me deixando sozinho na mais profunda escuridão. Até que o celular tocou e
tingiu as paredes com sua luz intermitente. Maldito seja! Cerrei os dentes,
fechei meu punho com toda força que ele quase sangraram, encarei aquele maldito
aparelho que insistia em me chamar, levantei-me e virei as costas para ele.
Parei. Não havia pelo que lutar, eu havia perdido, sentei pesadamente no chão e
levei o celular até meus ouvidos. Ele riu.
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