quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sem saída


"O tempo passa, todos vamos morrer de qualquer jeito
E nada restará
Não importa o que digas, não importa o que faças" 
— AVANTASIA, Scales of Justice

SOU INOCENTE. Ele corria o mais veloz que podia. Nunca havia necessitado se entregar a uma corrida desenfreada como essa, mas sabia que se não corresse o suficiente agora, certamente não teria outro dia para isso. Fiz o que achava certo.

            A fina chuva que caía conferia a cidade um tom acinzentado, a iluminação publica tentando trazer um pouco de luz, como se lutasse contra as trevas da noite, aliada ao sopro gélido do vento tornava a paisagem pouco aconchegante. Prédios aglomerados, casas aos pedaços e insistentes letreiros luminosos serviam de pano de fundo para aquela corrida desesperada. Já estava todo encharcado a aquela altura, trajava um casaco muito confortável e calças jeans em péssimo estado. Corria a plenos pulmões com a chuva e o vento a lhe agitar os cabelos castanhos, ainda portando o objeto que havia lhe gerado tanta angústia.

            Parou abruptamente em frente á uma lanchonete caindo aos pedaços e olhou nervosamente para trás. Nada. Apenas poucas pessoas caminhando pela noite tentando encontrar abrigo da chuva. Eu sei que ele está por aqui. No interior da lanchonete pôde ver dois homens se embebedando acompanhados de uma mulher que muito provavelmente tivera sido bonita na juventude — mas que não fora poupada pela ação do tempo —, eles conversavam já visivelmente alterados pela bebida, tentavam acariciar e apertar a mulher que se negava a receber os carinhos, porém ria muito da situação, os provocando. Eles sujam as ruas, eu tinha de fazer. Logo percebeu que se deixara distrair pela cena e num salto se colocou novamente a correr. O céu justifica.

            Sabia que se continuasse naquele ritmo logo seria alcançado, estava ficando exausto e sem opções. Se eu não tivesse feito, outro teria. Avistou ao longe, do outro lado da rua, um prédio em construção e sem ponderar deu uma rápida guinada em direção ao edifício cruzando a rua sem sequer olhar para os lados. Pôde sentir seu coração disparar quando ouviu uma buzina lhe alertando de que havia feito a escolha errada. Só o céu pode me julgar. Os enormes faróis rapidamente se aproximaram. Cheiro de borracha queimada contra o asfalto pôde ser sentido, seguido de um impacto que produziu um enorme barulho. Leve-me se quiser. Com os olhos fechados e cerrados com toda a força ele esperou, mas o impacto não veio. Gritos. Abriu os olhos e descobriu que o veículo havia se desviado dele e se chocado contra a padaria de antes, arruinando toda a facha e soterrando todos em seu interior. Seu corpo congelou. Pessoas começaram a cercar o veículo, correu então ainda com mais vontade até alcançar a construção de forma ainda mais desesperada. Aprovam minhas atitudes, essa é a maior prova disso.

            Cruzou os poucos metros que agora o separava do edifício a toda velocidade, ignorando faixas e telas de plástico que bloqueavam a entrada e alertavam dos perigos de uma obra em andamento como aquela, simplesmente as arrastando consigo, cortou-se e quase foi ao chão ao pisar em falso, mas não parou e nem mesmo diminuiu o ritmo. Estou certo! Então qual o motivo dele ainda me perseguir?

            Já dentro do edifício inacabado com as paredes sem pintura, repleto de lixo e materiais de construção usados, ele avistou uma escada que imaginou levar ao andar superior, seguiu até ela e subindo dois degraus de cada vez atingiu o próximo nível que se apresentou como uma ampla sala sem divisões, habitada apenas pelos pilares que sustentavam a estrutura e que se espalhavam a distâncias devidamente calculadas, na parede oposta existia um enorme vão que acabaria recebendo um vidro tornando-se assim uma janela que dava vista para quase toda a rua. Permitiu-se respirar por um segundo. Respirou rápido e ofegantemente. Não posso parar, não posso!

            Disparou novamente e através da escada ganhou os outros andares até que chegou ao quinto e último deles, a chuva ainda caía em forma de sereno e a aquela altura o vento havia se tornado mais forte e gelado. Não posso mais. Caminhou vagarosamente até o limite da construção e estacou a menos de um metro do parapeito. Respirou novamente, porém dessa vez de forma profunda e controlada enquanto fitava a cidade e suas luzes, seus sons. Esse lugar está condenado. 
            
            Foi até o limite do prédio e olhou para baixo, na aglomeração em volta do acidente na padaria. Ela era suja, maldita. Fiz o que qualquer pessoa de bem teria feito. Decidiu que não iria mais fugir. Virou-se vagarosamente para a entrada daquele piso e esperou.

            Sabia que não podia fugir para sempre, por mais que achasse que tivesse feito o certo ele ainda seria atormentado por Ele. Deu dois passos vacilantes na direção da escada e tocou por cima do bolso da calça o objeto que trazia com sigo. Eu fiz a minha parte. Enfiou vagarosamente a mão no bolso e trouxe para luz a lâmina que usara a pouco, a faca que brilhava imitando a claridade da lua ainda possuía sangue. Ele a segurou com firmeza. Ela teve o que merecia. Eu estou limpando essa cidade. Continuou caminhando, segurou a faca com força e encarou as escadas. Gente como ela não passa de lixo, um câncer.

            Por mais que tenha matado aquela mulher que se drogava na rua, em frente ao seu condomínio e encarado o fato como um ato de purificação de sua parte, uma maneira de fazer o bem à sociedade, ele sabia que não poderia fugir para sempre. Eu fiz o certo, não fiz? Não dele, Ele nunca o deixaria em paz pelo que fez, nunca o deixaria dormir tranquilo depois daquilo, resolveu então encarar seu algoz e terminar com o tormento de uma vez por todas. Meu pior inimigo. Caminhou e se deteve de frente á uma poça d´agua formada pela chuva em um recipiente usado na construção. Não posso continuar tendo você a me perseguir. Viu-se refletido na água, ergueu a lamina e a cravou no próprio peito. Havia vencido, colocado fim a perseguição, vencido seu pior inimigo. Sua própria consciência.

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